clube postal
Cartas escritas a marta cerqueira a propósito da segunda-edição do clube postal.
Olá, Marta!
Que bom receber a tua carta, também gosto muito de escrever mas parece que essas palavras acabam sempre por ficar comigo. E, ainda que fruto da sorte, obrigado por teres começado a troca, é sempre mais fácil responder.
Um pouco sobre mim; estou a escrever-te de uma casa nova, de um amigo recente, em que nunca estive, e onde vou passar uma semana a tomar conta dela e da June, a sua pequena de quatro patas.
Eu sei que a morada que tens para correspondermos diz Mem Martins mas não sinto que tenha morada fixa nestes últimos tempos. Depois de 8 anos a viver na Austrália e do final de uma longa relação, estou de volta a Portugal e Lisboa. A morada de Mem Martins é a minha mãe, aquele ponto de referência que todos temos, mas passo tanto tempo lá como fora, em casa dos meus irmãos e amigos. Já faço a minha vida por cá, mas ainda não assentei.
Estudei Publicidade e Marketing em Benfica, algo de que cedo me fartei, e há muitos anos que trabalho fotógrafo. Tenho criado bastante com outros artistas, a documentar o seu processo criativo ou a criar os visuais para os seus trabalhos – ainda me sinto enferrujado a escrever em Português. Gosto muito de colaborar e de experimentar, a maior parte dos meus trabalhos são criados nessa base. Se calhar chegou o momento para te apresentar a fotografia que te enviei junto com esta carta. Ainda não lhe dei título (queres ajudar-me? Ahah), mas foi tirada em Aotearoa, Nova Zelândia, numa caminhada ao final do dia. Porquê esta? Porque é uma das mais recentes, favoritas, a primeira que em que pensei, e porque temos que começar por qualquer lado. Para a próxima carta, se quiseres, dá-me uma deixa para seguir ao escolher a nova fotografia desta série.
Alguns factos gerais que podem ser interessantes: a minha mãe chama-se Delta, tenho dois irmãos, um sobrinho e uma sobrinha, adoro ser tio, adoro música, adoro filmes, e adoro gelados (tudo quase ao mesmo nível mas nunca o admitirei em público!).
Muitos parabéns pelo novo ser pequenino que está a caminho! E pelo teu anterior também, não acho que a magia e a conquista sejam de alguma forma menores. Sempre achei as pessoas que escolhem ter filhos especiais, eu nunca senti essa vontade e tenho imenso respeito pela escolha de criar um ser humano. Quanto ao teu trabalho, que merda. Ainda vamos acabar a dar corpos à AI antes de aceitar e respeitar o que é engravidar.
E sinto que pouco interessa o que se põe na caixinha que diz [profissão]. Encaro-o da mesma forma que aquelas bandas que lançam um álbum por década mas têm carreira de 30 anos.
Gostava de ouvir um dos podcasts de que falaste, ou um dos livros do teu clube, algo que acrescente contexto a estas cartas – se quiseres partilhar, claro.
Para terminar, viajar também é bastante importante para mim. O seguir a curiosidade, conhecer, e por vezes ser confrontado, novas realidades, perceber a bolhinha em que estamos inseridos. Muitas vezes viajo para ver concertos e exposições, gosto muito de viajar sozinho e acompanhado.
Já fui montanhista, corri ultra-trails, desempregado, emigrante, artista visual, fiz limpeza de carpetes, e agora, apenas fotógrafo a trabalhar num livro sobre muitas destas experiências.
Li e reli a carta, sinto que o meu português precisa de ser praticado (obrigado por ajudares, aceitam-se correcções e sugestões! Ahah), que se calhar me faltam elementos cruciais, mas fica tudo para as próximas cartas.
Um beijo,
Jorge
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Esta carta foi escrita terça-feira, dia 14 Abril de 2026, na rua Gilberto Rola, em Alcântara, pelas 14:25, ao som de Noche de Sofiane Pamart.
Olá, Marta!
Antes de mais, fico muito contente por conhecer a primeira pessoa que percebe a minha “caligrafia”, e eu incluo-me neste grupo! Ahah
Nunca tive o hábito de trocar cartas mas costumava, com a minha irmã dois anos mais nova, ter um diário em que escrevíamos sobre aquelas coisas íntimas que queríamos partilhar com outra pessoas mas não sabíamos como. Quem tinha o caderno escrevia, quando acabasse deixava no quarto do outro, e não se falava mais sobre isso.
Sobre as cabinas, gosto que ainda sobrevivam algumas. Onde vivi na Austrália tornaram as cabines gratuitas para chamadas nacionais, e ainda se tornaram em pontos wi-fi gratuitos também. Parece-me uma boa solução para as manter como objecto urbano e ainda tornar a cidade e a comunicação mais acessíveis.
Fico contente que tenhas conseguido abrandar, acho-o inevitável com este calor. Admira-me que alguma coisa se faça nos países tropicais! Aposto que o Zé (só Zé) também tem gostado de ter a mãe por perto durante mais tempo. Tenho uma amiga que também está grávida, e de um tempo semelhante, então consigo fazer alguns paralelos entre as vossa experiências e o que deve ser estar a chegar à recta final - até tenho aberto umas excepções e feito alguma fotografia de maternidade para ela :)
E, já agora, Golden Strike e Absinto! Isso é que eram festas! Ahahah
Gostava de saber um pouco mais dessa fase da tua vida.
Acredito que “o Jorge de Mem Martins” não seja a sinopse mais aguçante, mas gosto de olhar para trás e ver a trajetória que me levou pelo mundo fora. Sabes, o ter ido para a Austrália e lá ter passado tanto tempo não foi algo que tenha planeado. Já queria ir viver para fora e o resto foi aconteccrecheo. Acredito que qualquer tipo de mudança seja mais difícil com pequenos humanos, mas há muito que conhece e viajar sem precisar de ir para tão longe.
O teu estilo de vida não me parece nada freak - eu também tenho usar transportes públicos e bicicleta para o meu dia a dia, quase toda a minha roupa é em segunda-mão, e só costumo comer carne em situações culturais ou em que já tenha sido preparada. Quanto a manifs, também costumo ir, venho de uma familia acérrima defensora e devota do 25 de Abril, então esse espírito de rua foi-me incutido desde muito novo. E sei perfeitamente qual é a cooperativa de que fazes parte, costumo passar nessa zona várias vezes por semana. Da próxima vez entro para ver se falamos um com o outro sem nos apercebermos! Ahahah
Gosto sempre de perceber como os outros vêm as fotografias que tiro, e achei o título que lhe deste, a forma como a recebeste, muito interessante. Por mim pode ficar “Pausa” ou, se não te importares “Okioki” que é a palavra Maori para pausa, e assim acrescentamos mais informação à fotografia. Para esta carta tenho outra fotografia - ainda bem que gostaste da primeira, caso contrário, este segmento ia ser a custo! Esta já tem título “Last Light”, e foi tirada na ilha dos meus pais, Terceira, durante o crepúsculo vespertino, na direção da Austrália, onde morava, durante uma visita de família. Não vou dizer muito mais para perceber o que achas dela.
A Delta é mesmo uma pessoa incrível, e a história do nome dela podia rivalizar qualquer novela da globo! Muito resumidamente, é o nome da madrasta do meu avô, de qual ele não gostava, e com que o pai dele fugiu raptando os dois filhos (4 anos e 6 meses)… não disse?!
Fausto é um nome muito bonito - uma coisa de que gosto nos Açores é que ainda se ouvem nomes como este muito mais frequentemente. Também há nomes como Heriberto, nem tudo é um mar de rosas. Ahahah
Obrigado pelas tuas recomendações, vou pegar numa delas e começar a ler um dos livros que recomendaste. O mesmo com os podcasts! Gosto muito de partilhar recomendações com os meus amigos. Do meu lado, estes foram os últimos que li:
* O Livro Branco, de Han Kang - estrutura solta, biográfico, à volta da cor branca como referência de episódios de mudança, alegria e luto na sua família.
* Faith, Hope, and Carnage, de Nick Cave - uma séria de entrevistas que exploram a sua vida e o seu processo criativo
* On Photography, Susan Sontag - uma intelectual dos anos 60/70 nos EUA que escreveu um longo ensaio sobre fotografia. Muito interessante mas se calhar não a melhor recomendação.
Quanto a podcasts há alguns que sigo e me dizem muito como:
* Revisionist History, de Malcolm Gladwell, em que se revisitam momentos da história e se recontextualizam com maior discernimento. Fiz soar muito aborrecido mas não é!
* My Dad Wrote a Porno, é muito engraçado, um grupo de 3 amigos lê as novelas eróticas que o pai de um decidiu escrever quando se reformou. É giro porque ele escreve muito mal e acaba por ter 0 erotismo envolvido.
* Ill-Advised, com o Bill Nighy, um podcast em que ele dá conselhos. Acaba por chegar sempre a temas não relacionados muito interessantes.
O meu verão ainda está muito em aberto, embora, algo que vais ser a primeira a saber, candidatei-me a uma residência artística no Canadá e fui aceite. Agora estou só a perceber se as viagens e os custos são realmente exequíveis. Fora isso, quero ir acampar também - tenho uma bicicleta toda equipada para isso, e gostava de sair da cidade para me esconder e trabalhar no meu livro, acho que preciso de uma mudança de cenário para desbloquear as ideias. Talvez o faça nos Açores e aproveite para visitar família.
Como sempre, caso tenhas alguma dificuldade em perceber a minha letra, eu deixei uma cópia digital em www.mingua.co/clubepostal
um beijo,
Jorge
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Esta carta foi escrita terça-feira, dia 19 maio de 2026, no Largo do Duque de Cadaval, no Rossio, pelas 13:15, ao som de portrait of a dog de jonah yano.
Olá, Marta!
Que bom receber a tua carta, também gosto muito de escrever mas parece que essas palavras acabam sempre por ficar comigo. E, ainda que fruto da sorte, obrigado por teres começado a troca, é sempre mais fácil responder.
Um pouco sobre mim; estou a escrever-te de uma casa nova, de um amigo recente, em que nunca estive, e onde vou passar uma semana a tomar conta dela e da June, a sua pequena de quatro patas.
Eu sei que a morada que tens para correspondermos diz Mem Martins mas não sinto que tenha morada fixa nestes últimos tempos. Depois de 8 anos a viver na Austrália e do final de uma longa relação, estou de volta a Portugal e Lisboa. A morada de Mem Martins é a minha mãe, aquele ponto de referência que todos temos, mas passo tanto tempo lá como fora, em casa dos meus irmãos e amigos. Já faço a minha vida por cá, mas ainda não assentei.
Estudei Publicidade e Marketing em Benfica, algo de que cedo me fartei, e há muitos anos que trabalho fotógrafo. Tenho criado bastante com outros artistas, a documentar o seu processo criativo ou a criar os visuais para os seus trabalhos – ainda me sinto enferrujado a escrever em Português. Gosto muito de colaborar e de experimentar, a maior parte dos meus trabalhos são criados nessa base. Se calhar chegou o momento para te apresentar a fotografia que te enviei junto com esta carta. Ainda não lhe dei título (queres ajudar-me? Ahah), mas foi tirada em Aotearoa, Nova Zelândia, numa caminhada ao final do dia. Porquê esta? Porque é uma das mais recentes, favoritas, a primeira que em que pensei, e porque temos que começar por qualquer lado. Para a próxima carta, se quiseres, dá-me uma deixa para seguir ao escolher a nova fotografia desta série.
Alguns factos gerais que podem ser interessantes: a minha mãe chama-se Delta, tenho dois irmãos, um sobrinho e uma sobrinha, adoro ser tio, adoro música, adoro filmes, e adoro gelados (tudo quase ao mesmo nível mas nunca o admitirei em público!).
Muitos parabéns pelo novo ser pequenino que está a caminho! E pelo teu anterior também, não acho que a magia e a conquista sejam de alguma forma menores. Sempre achei as pessoas que escolhem ter filhos especiais, eu nunca senti essa vontade e tenho imenso respeito pela escolha de criar um ser humano. Quanto ao teu trabalho, que merda. Ainda vamos acabar a dar corpos à AI antes de aceitar e respeitar o que é engravidar.
E sinto que pouco interessa o que se põe na caixinha que diz [profissão]. Encaro-o da mesma forma que aquelas bandas que lançam um álbum por década mas têm carreira de 30 anos.
Gostava de ouvir um dos podcasts de que falaste, ou um dos livros do teu clube, algo que acrescente contexto a estas cartas – se quiseres partilhar, claro.
Para terminar, viajar também é bastante importante para mim. O seguir a curiosidade, conhecer, e por vezes ser confrontado, novas realidades, perceber a bolhinha em que estamos inseridos. Muitas vezes viajo para ver concertos e exposições, gosto muito de viajar sozinho e acompanhado.
Já fui montanhista, corri ultra-trails, desempregado, emigrante, artista visual, fiz limpeza de carpetes, e agora, apenas fotógrafo a trabalhar num livro sobre muitas destas experiências.
Li e reli a carta, sinto que o meu português precisa de ser praticado (obrigado por ajudares, aceitam-se correcções e sugestões! Ahah), que se calhar me faltam elementos cruciais, mas fica tudo para as próximas cartas.
Um beijo,
Jorge
______
Esta carta foi escrita terça-feira, dia 14 Abril de 2026, na rua Gilberto Rola, em Alcântara, pelas 14:25, ao som de Noche de Sofiane Pamart.
